Se você já observou seu cão enquanto ele dorme profundamente, certamente presenciou o espetáculo: as patas tremem ritmicamente, o focinho se contrai como se farejasse algo invisível e, ocasionalmente, um latido abafado ou um ganido escapa. Para o tutor, a cena é quase sempre vista com fofura, associada à ideia clássica de que o animal está “caçando coelhos”. Para a neurociência veterinária, no entanto, esses movimentos são janelas para a complexa arquitetura cerebral dos canídeos e para um processo de consolidação de memória que pouco difere do nosso. A chave para entender esse comportamento reside no ciclo do sono, especificamente na fase REM (Rapid Eye Movement).
Assim como nós, os cães alternam entre o sono de ondas lentas e o sono REM. É nesta segunda fase que a atividade cerebral se intensifica, assemelhando-se ao estado de vigília, embora o corpo permaneça em uma espécie de paralisia temporária. O freio biológico e suas falhas O que impede um cão de realmente se levantar e correr contra a parede enquanto sonha é uma estrutura no tronco cerebral chamada ponte (ou pons varolii). A função da ponte é inibir os neurônios motores, criando uma atonia muscular. Nos filhotes, essa estrutura ainda está em desenvolvimento, o que explica por que eles se mexem e “correm” muito mais durante o sono do que os adultos.
Por outro lado, em cães idosos, a eficácia desse “freio” pode diminuir devido a processos neurodegenerativos, fazendo com que cães seniores voltem a apresentar movimentos vigorosos durante a noite. A intensidade desses espasmos também parece variar conforme o porte do animal. Estudos indicam que cães de raças pequenas, como o Chihuahua ou o Toy Poodle, tendem a ter sonhos mais frequentes, porém curtos, ocorrendo a cada dez minutos. Já um Golden Retriever ou um Dogue Alemão pode sonhar apenas uma vez a cada 60 ou 90 minutos, mas suas sessões de REM são significativamente mais longas e profundas. O que acontece no “teatro” mental? Cientificamente, acredita-se que os cães não criam cenários puramente fictícios como os humanos fazem. O sonho canino é uma reedição da realidade.
Se um Border Collie passou o dia em um parque treinando comandos de agilidade, os padrões elétricos disparados em seu hipocampo durante o sono REM serão quase idênticos aos registrados durante a atividade física. O cérebro está, literalmente, praticando. Imagine o seguinte cenário clínico: um cão de pastoreio que apresenta dificuldades em aprender um novo comando de “stop” à distância. Se esse animal não atinge o sono profundo devido a ruídos ambientais ou dor articular, a curva de aprendizado dele será drasticamente reduzida. O movimento das patas que vemos no sofá é o sinal físico de que o cérebro está processando dados, descartando informações inúteis e fortalecendo as sinapses que garantem a sobrevivência e o aprendizado. O risco de despertar o sonhador Existe uma base biológica para o velho ditado “deixe cães dormindo descansarem”.
Quando um cão está em pleno movimento de “corrida” onírica, ele está no estágio mais profundo de inconsciência. Acordá-lo abruptamente com um toque pode desencadear uma resposta reflexiva do sistema límbico — a parte do cérebro responsável pela sobrevivência (luta ou fuga). O animal pode acordar desorientado e, por uma fração de segundo, não reconhecer o ambiente, o que pode levar a uma mordida acidental por puro reflexo de autodefesa. Se houver a necessidade real de acordá-lo — talvez por perceber que o sonho se tornou um pesadelo angustiante, algo comum em animais que sofreram traumas ou maus-tratos —, o ideal é usar a voz de forma suave, chamando o nome dele à distância, permitindo que a consciência retorne gradualmente sem o choque do contato físico.